A menina do brinco que não era de pérola

A menina do brinco que não era de pérola

Aos 10 anos, Zeni já começou a brincar de gente grande. Na pequenina Capivari, povoado próximo a Bom Despacho, a menininha se viu sem o pai e com a mãe, D. Maria Francisca, sem forças. Ela fraquejou depois de ver o marido cair sem vida em seus braços. E olha que este triste acontecimento foi justamente no dia em que ele comprou alguns hectares de terra para a família, no cartório, quando ele foi assinar a escritura.

Desde então, Zeni passou a cuidar dos cinco irmãos mais novos e de tudo que cercava a casinha de pau a pique, já que eles nunca conseguiram colocar os pés nas terras que o pai havia comprado.

Em meio a panelas, vassouras e bundas de bebê,  a pequena dona de casa ainda encontrava tempo de se debruçar na janela para sonhar. Sonhava o impossível – queria rever o pai, pedia com todas as forças que tinha para ele aparecer, falava para Deus que nem iria se assustar com o fantasma dele. Um dia ela cansou de sonhar com o impossível, conformou-se, não sem saudade, e pediu apenas um brinco para enfeitar-se, dar um pouco de cor a sua própria existência.

“Não precisa ser de ouro, nem de prata, nem de bronze, nem pérola. Só quero um par de brincos para adornar as orelhas, como as mulheres e até meninas daqui fazem.”, dizia toda vez que se debruçava na janela.

Certo dia, andando entre as árvores, perto do rio, ela encontrou uma plantinha com uma frutinha esférica. O formato, só o formato, era muito parecido com as pérolas e contas coloridas que as moças usavam e ela sonhava. Ela então chegou mais perto, sem medo, observou bem a frutinha e viu que uma fina camada protegia a bolinha que estava lá dentro. Retirou aquela película, notou que havia uma espécie de cola e pensou que podia grudar aquela esfera na orelha. Assim ela fez. O brinco durava alguns dias, uns três talvez. Sempre que murchava, Zeni colhia um novo par de brincos.

Num dia de festa, um aniversário de criança no povoado, ela fez até um colar, com dez bolinhas daquelas. Nenhuma menina, moça ou mulher tinha jóias iguais às dela.

Por isso mesmo, Rita, uma bela moça do povoado, notou as bijouterias de Zeni. Ao conhecer a história dos enfeites da menina, ela ficou maravilhada com tamanha criatividade e também gostou da menininha. Assim, ela que tinha inúmeras jóias, decidiu presenteá-la com um par de brincos de pérola.

“Mocinha, amanhã quero que passe na minha casa, tenho um presente para você,  brincos tão bonitos quanto esses que você usa agora”, disse Rita.

Zeni perdeu o sono de tanta felicidade. Também perdeu as contas dos carneirinhos que contou para adormecer. No fim da noite – quase dia – ela conseguiu pegar no sono. Porém, não dormiu tantas horas quanto precisava e bocejou durante o dia todo, tinha que terminar as tarefas de casa para buscar os brincos de pérola. Mas o sono era bem menor do que a vontade de acabar tudo.

Quando o sol se pôs, a casa estava limpa, os irmãos alimentados, ela foi, então, à casa de Rita.

“Aqui estão menina, o que acha, gostou?”, disse

“Nossa, é pérola mesmo, vou colocar agora. Obrigada, Rita!”

E a menina encaixou o brinco em um furo que foi feito quando ela nasceu. Olhava no espelho a cada minuto, maravilhada. No entanto, no outro dia Zeni não aguentava de dor. A orelha estava cheia de pus e muito avermelhada. Doía muito, muito mesmo. Ela começou a chorar, mais por ter que tirar os brincos do que pelo quanto doía. A orelha parou de doer em alguns dias, mas para Zeni era doloroso era pensar que ela nunca mais poderia usar as pérolas.

Até hoje, com mais de 70 anos, ela conta esta história e mostra os brincos de pérola guardados como lembrança. Na orelha, ela continua a colocar os brincos que são colhidos em uma pequena árvore que dá frutos na beira do rio.

Written by Talita Camargos View all posts by this author →

Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.

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