Castigo para ladrões de galinha

Castigo para ladrões de galinha

Moça da roça, criada com pé no chão, os pais de Dulce sempre disseram que ela precisava de ir para a cidade estudar. E ela os obedeceu, foi, aos 17 anos, cursar o segundo grau na cidade mais próxima do sítio. Só que estudar não bastava e ela dividia os dias com trabalho e aulas. Demorou a se acostumar com o trânsito, tempo contado para tudo e vizinhos dos quais ela nem sabia o nome. Com o passar dos dias ela se acostumou com tudo, ou melhor, quase tudo.

No supermercado torcia a cara para os frangos da granja, por mais que caprichasse no tempero, o sabor ficava longe daquela galinha caipira preparada no fogão à lenha. O remédio foi ir para o sítio dos pais todo sábado. Mesmo quando não tinha dinheiro ela ia, caminhava pelas estradas de terra até chegar lá. Quando arrumou um namorado agradeceu por ele fazer questão de comer uma galinha no domingo. Ele era de uma cidadezinha mais longe e o sítio dava um aconchego para o rapaz que também tinha pouco dinheiro. A fome e a vontade de comer faziam deles um bom par pelas estradinhas até o sítio.

Era uma festa quando os dois chegavam. Na maioria das vezes, a mãe de Dulce já depenava um galinha das mais gordas e o pai colocava lenha para queimar. Só que um dia o galinheiro estava vazio, a família vendeu mais frangos do que o esperado durante a semana. Mas os namorados já salivavam desde antes de saírem da cidade e pensaram em um outro jeito de providenciar o prato.

Dulce contou as moedas, pediu parte do que os pais tinham ganhado com a venda das galinhas durante a semana e foi na casa do vizinho tentar comprar. O problema é que seu Chico tinha vacinado a frangaiada dias antes com um remédio que impossibilitava de comer os galináceos.

— Dulce, já te falei, se eu vender qualquer uma das galinhas vocês vão passar mal. Até te daria, não é má vontade – disse Seu Chico, depois de explicar inúmeras vezes porque não podia vender.

A menina insistiu tanto que ele foi obrigado a fazer uma grosseria.

— Ai, Dulce, vou é fechar a janela e dormir, domingo é o único dia que tenho para descansar – falou.

O casal não se deu por satisfeito. Ver galinhas gordas no quintal e pensar em almoço de domingo com carne de vaca não ajudava. O namorado de Dulce arregaçou as mangas, entrou no galinheiro e se tornou um ladrão.

— Faz isso não, deu pra roubar galinha agora?

— Ele disse que nem te cobraria, nem vai fazer falta.

E assim voltaram para a casa da menina.

— Mãe, seu Chico falou que a galinha foi vacinada há uns dias, mas que já tá tudo certo, olha que gorda ela está.

— Vish, será que não vai fazer mal?

Como a galinha já estava depenada, cozinharam-na. No meio do almoço, o namorado sussurrou no ouvido de Dulce.

— Bem que falam que galinha roubada é mais gostosa.

Estava boa mesmo. Não sobrou nem o pescoço para contar a história. Só que tão certo quanto o sabor de uma galinha roubada, era o estrago que uma galinha vacinada fazia. Dulce foi a primeira a sentir o estômago revirar, depois foi o namorado. Chegou a um ponto que o banheiro, único na casa, tornou-se pouco para tanta diarreia. O pai, a mãe e os dois irmãos de Dulce tiveram que arrumar um lugar no mato.

Sorte da Dulce é que na segunda era feriado, pois o mal da galinha roubada perdurou até o outro dia. Boldo, carqueja, água com limão, nada resolveu. Para mal dos pecados, ela e o namorado tiveram que voltar a pé para a cidade. A barriga doía, mas não tinha nada a fazer a não ser improvisar um banheiro na estrada. Teve uma curva que a diarreia apertou tanto que eles a apelidaram de CURVA DA MERDA!

Assim terminou a carreira de ladrões de galinhas do casal, numa verdadeira (numas, né), cagada!

 

 

 

Written by Talita Camargos View all posts by this author →

Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.

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