A história de um casal quase normal

A história de um casal quase normal

Ellen e Tiago formavam um casal quase normal. As discussões começavam por causa de bobagens e eram frequentes. O que fazia dos dois só quase normais eram as discussões transformarem-se em brigas. Bastava um dizer: “Amor, vire à esquerda, por aí o caminho é mais longo”. “Não é, conheço aqui como minha mão, namorei muito tempo uma moça que mora neste bairro”. Ellen fingia estar nem aí para a tal ex, responsável por ele saber o caminho, porém insistia que à esquerda era o caminho mais fácil. Bastava para brigarem até o dia seguinte. Um dormia no sofá, o outro ocupava o quarto. Ficavam sem se falar por uma semana quando isso ocorria.

Outra vez, eles levaram umas galinhas para ficarem na roça da mãe de Tiago. Acomodaram-se, esqueciam de levar a ração das galinhas. Isso porque Ellen sempre falava que passava na casa agropecuária depois. E ela sempre saía de lá com muitas dúzias de ovos depois. Porém, em uma das idas lá Tiago recusou-se a pedir os ovos, como forma de mostrar que era injusto não colaborar. Ela fez o pedido quando já estava no carro e ao notar que os ovos não estavam lá começou a briga, já no caminho para casa.

– Não peguei porque enquanto não ajudarmos fica tudo pra mamãe, não é justo. Eu só lembro quando estou quase chegando e você sempre dá um jeito de não parar – justificou Tiago.

Ela deu um milhão de xingos em 15 minutos e ele retrucou todos. Ele retrucou todos. Um não concordava com o outro de jeito nenhum. Ao chegar em casa Tiago decidiu pegar algumas roupas, colocou a TV do quarto embaixo do braço e saiu – decidiu separar-se por causa da briga que começou por uma dúzia de ovos.

Young couple arguing

A mãe não acreditou no quanto o filho estava bravo, muito menos no motivo da separação. Ele dizia que até voltava, mas a esposa teria que ir lá conversar. Ellen falava que só reatava se ele a procurasse. A mãe falava que se o problema eram os ovos, ali estavam duas dúzias.

– Toma, meu filho, eu nem consigo consumir tudo isso, ainda tem mais no galinheiro.

– Não, ela que venha aqui.

Porém, Ellen não foi. As galinhas não pararam de botar, a sogra nem conseguia vender tudo, muito menos consumi-los. Inventou receitas, fez mais bolos, levou pra um feirante. Tiago também se recusava a procurar a mulher.

– Ela que venha, mãe, já falei, lá eu não vou de forma alguma.

Ellen falava algo parecido.

– Ele que saiu de casa, se quiser que me procure.

Confusões depois da briga do casal

Sem a mulher Tiago começou a beber, fumar, ficar em bares, fazer besteira. Os ovos se acumulavam na despensa e galinheiro. Alguns até estragaram, outras a mãe de Tiago começou a colocar pra chocar. Daí vieram mais pintinhos.

Ellen ligou um dia no celular da mãe de Tiago com a desculpa de que tinha esquecido algo na casa dela. Não tinha, era uma desculpa para saber como estava o ex.

Um dia, bêbado, o orgulho desapareceu, ele chegou na casa de Ellen com 3 dúzias de ovos e cantando uma música que havia acabado de compor, a única na vida.

Reataram. Continuam a discutir por motivos inacreditáveis e a perder noites juntos. A separam por causa dos ovos foi a quinta em 12 anos juntos. Sabe-se lá qual será o motivo da décima terceira, certo é que a razão será futil e provável de que não dure nem 30 dias, como sempre.

Written by Talita Camargos View all posts by this author →

Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.

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