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Tisnado: o vendedor que tinha que mandar os clientes voltarem no dia seguinte

Venda do seu Tisnado por fora. Foto: William Santiago

Na vendinha do Seu Tisnado tinha tudo, tudo mesmo. Era tanta coisa que nem sempre ele encontrava o que o cliente queria e pedia que ele voltasse no dia seguinte pra buscar.

Não tinha nem jeito de falar que era para ele providenciar o que faltava. Naquela época, os mercadinhos eram abastecidos por viajantes que passavam na cidade. E como naquele tempo a pressa era bem menor, todo mundo entendia.

Com o tempo, o povo até se acostumou: quando sabia que precisava de algo ia com antecedência no seu Tisnado e fazia a encomenda. Ninguém nem cogitava a hipótese de fazer a compra em outro lugar porque os mercadinhos eram poucos na cidade, além disso, no seu Tisnado era certo de encontrar o que queria (no dia seguinte, claro), era só ter paciência. Quando o produto pedido estava fora das vistas ele falava:

– Oh fio, ter tem, mas preciso procurar. Cê volta aqui amanhã?

Quem era mais atarefado até mandava a meninada subir a ladeira e fazer a compra, ops, pedido. Porém, se tinha uma coisa que ficava no lugar certinho eram os jornais, pois nem eram só mercadorias que o povo ia lá procurar. Seu Tisnado lia os jornais todos os dias e nunca os usava para embrulhar nada, via valor por demais nas notícias. Guardava todos. E como na época TV não era para todos, quem queria saber o que estava acontecendo no mundo ia lá. As publicações ele encontrava com mais facilidade do que certos produtos.

Olha a pilha de jornais. Fonte: Blog Daqui de Pitangui

A prosa era boa também. Seu Tisnado lia muito, o que fazia dele um homem muito interessante. A resposta vinha certeira quando ele era perguntado. Quando por acaso a dúvida vinha, era só procurar na pilha de jornais para dar a informação certinha.

Sobre o texto:

A história do seu Tisnado foi contada pelo meu pai que morou lá em Pitangui. Complementei algumas informações e fotos do blog Daqui de Pitangui.

Errata: 

Seu Tisnado era tão bom comerciante que meu pai achou que ele era libanês, por isso na primeira versão deste texto eu coloquei o que me contou. Como podem ver abaixo, um parente do Tisnado me corrigiu, por isso editei o texto.

 

Talita Camargos: Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.