O silêncio incomoda, mesmo na companhia de desconhecidos ou quando não se tem nenhuma muita intimidade. Puxar conversa é quase uma lei para a maioria. E para cumpri-la o tempo ajuda (Ah, como está quente, né?), dizer que a pessoa parece com algum conhecido ou comentar o fato do dia, semana. Só que de vez em quando o que era para ser uma gentileza soa quase, ou como, ofensa.
Acontece quando o tempo sem contato com o outro é grande e vem a pergunta pelos pais, por exemplo, aí descobrimos do jeito mais constrangedor que um deles se foi. Uma vez encontrei uma ex-colega de república no metrô, era véspera de dia das mães e ela iria viajar, logo disse: “Vai ver sua mãe?”. A moça me falou triste que não, iria passar o fim de semana com as irmãs e o pai, sensibilizados pela perda, o encontro traria mais conforto.
Com meu pai aconteceu algo bem pior, acho que o puxador de assunto nunca mais abriu a boca para tentar parecer simpático. Em viagem de negócios com o meu padrinho Ronaldo, o filho do dono da empresa fazia sala para eles enquanto o homem não chegava. Os compadres, melhores amigos, esperavam absortos nos silêncios comuns em esperas e o menino perguntou:
“Você é pai dele?”
Os dois têm quase a mesma idade, mas meu pai é maior, dono de uma voz mais grossa e ambos não perdem a oportunidade de tirar onda com a cara um do outro. Antes que o suposto filho pudesse falar algo ele bateu na mesa e disse:
“Você acaba de me arrumar problema pro resto da vida, podia ter feito isso não, menino! Agora não vou aguentar o Ronaldo mais”.
Ele ficou tão bravo que meu padrinho nem falou nada na hora, só riu, era inevitável. Só que hoje ele o chama de papai e conta a história para todo mundo.
Às vezes o silêncio vale ouro mesmo. É melhor falar sobre o tempo, novela ou qualquer outra besteira quando a ideia for quebrar o gelo e deixar vir revelações aos poucos para saber até onde ir.