X

Porque ele deletou o Facebook

Recebo com um misto de surpresa e riso as perguntas sobre o porquê de meu melhor amigo ter deletado o Facebook. Fico espantada, já que a existência virtual hoje só parece poder ser dissolvida se uma tragédia, desilusão amorosa, um vídeo comprometedor tiver caído na rede ou razões do tipo. Rio quando as pessoas dizem que estão aliviadas quando respondo que nada de mal aconteceu a ele.

Eu entendo, pois quando a tristeza toma conta há caminhos comuns na web: a pessoa desabafa em rede nacional social, pode se ater a receber as condolências ou deleta o perfil para não ter que ouvir nada a respeito do que ocorreu. Eu não condeno nenhuma das posturas, só que penso também que não é nenhuma tragédia optar por viver sem Facebook, Instagram, Twitter ou qualquer outra rede.

Tenho contato diário com ele, por isso sei desde o início que só se cansou das postagens, com peso de tiro de bazuca na guerra política que temos vivido. O campo minado é motivo suficiente para sair do Facebook, beira a tragédia mesmo. Da próxima vez que me perguntarem vou até dizer que ocorreu algo muito triste mesmo e que tem acontecido comigo também: uma avalanche de comentários vazios tomou conta da timeline e sufocou meu amigo, o jeito foi correr para poder respirar.

É claro que na firma e nas esquinas ele continua a ouvir, mas pelo menos do Facebook ele pode sair e voltar quando quiser, já ir a outros lugares é quase uma obrigação.

Eu não deleto porque uso armas que a própria rede social fornece – deixo de seguir alguns, peço para não ver determinadas fotos e lanço mão de outra arma poderosa para continuar lá: ignoro, apesar de observar e ter pena. Cada um tem direito de dizer o que quiser, agora processar, concordar ou rebater é outra história. Também preciso da criação de Mark para trabalhar, de verdade. O Facebook para mim equivale à firma onde meu amigo trabalha, não toda, mas um departamento que frequento bastante. Por isso, tento fazer de lá um lugar tolerável com meu bom senso e ferramentas de limpeza que tenho. Mas que eu gostaria de ter que usá-las menos e que os internautas postassem conteúdo mais interessantes, ah, isso eu gostaria!

 

 

Talita Camargos: Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.