Pagar língua é uma daquelas leis da vida que me ensina muito. Por vezes, até gosto de fazer exatamente o contrário do que eu pensava, mesmo que inicialmente obrigada. Pagar língua abre meus olhos, desfaz preconceitos, amplia meus caminhos. Eu já quebrei muito a cara, algumas vezes com gosto. Já prometi nunca mais namorar uma pessoa da minha cidade, não só flertei, não só namorei, casei! Pago esta língua satisfeita hoje e quero ser convencida todo dia de que valeu a pena pelo resto da vida.
É por isso que quando me dizem para eu só falar no que eu quero ou nunca dizer nunca tenho minhas dúvidas se é um bom negócio. Eu profetizo meus desejos, porém de vez em quando falo:
“Tá doido? De jeito nenhum, isso eu não faço”.
Tempos depois vejo que a única alternativa é quebrar a promessa, deixar o vento levar minhas palavras e não me importo se o ouvinte do meu veto à ação me disser que jurei de pés juntos, quase ajoelhei para falar que não iria a um lugar, comeria algo, etc, pouco importa.
Entretanto, acontece o contrário também. Vou com sede ao pote, com a certeza de que estou prestes a realizar um sonho e de repente me descubro em um pesadelo dos mais tenebrosos. Outra questão comum é provar que certos estereótipos de vez em quando estão certos. Aí formo pós-conceitos, pouco sedimentados, sempre com uma brecha para que um acontecimento mostre-me o outro lado da moeda.
Parece que muito do que me faz realmente bem está longe do meu entendimento. Por isso, não deixo de traçar planos, porém estou sempre pronta para aproveitar a maré. Ajusto as velas, passo pelas tempestades do novo e sigo, como dá, nem sempre da forma pensada inicialmente. Deixar a vida me levar faz parte, só que não permito que seja por um tempo muito longo. Revejo meus planos, sempre na direção do sonho e aponto para a fé, remo, como canta Los Hermanos.
No fim, acredito que o importante seja evoluir com tudo, certezas, certezas desfeitas, sonhos e pesadelos, pouco importa se para crescer eu tenha que pagar língua.