Se namorar atrás da igreja for errado, é fácil pedir perdão antes de pecar. Os encontros acontecem (ou aconteciam) depois da missa de domingo, hora mais do que reservada para falar com Deus. Mas eu tenho quase certeza que uns inocentes beijos atrás da igreja são perdoados. Na minha época, o ponto de encontro escondia apenas a minha timidez e eu da braveza dos meus pais. O “namoro” tinha que ser rápido, os minutos para passear depois que o padre desse a última benção eram poucos e custavam caro se ultrapassados. Daí, os beijos e abraços eram tão tímidos quanto eu. Além disso, logo depois da missa os pombinhos não seriam loucos de fazer nada errado, bem ali, lugar sagrado.
Eu desconfio que namorar atrás da igreja é um costume das pequenas cidades também, terra de gente que se envergonha mais facilmente do que na cidade grande, justamente pela inocência, não há de ser pecado mesmo, né? E só no interior a “Casa de Deus” fica às escuras, impossível esconder o namorado atrás das igrejas das capitais, elas estão em regiões centrais e os carros jogam holofotes no casal, como se fossem protagonistas de um filme.
Acho também que era uma questão cultural da minha época ou de umas gerações antes da minha e outras pouco depois. Com 13, 14 anos, assumir namoro era uma afronta à família, pelo menos para a minha.
Dizer que estava ficando, no auge da popularização do termo, então, era pedir para se embolar em explicações das mais complicadas para os pais. O jeito era marcar o encontro na hora do recreio e esperar a missa. Aliás, mandar alguém marcar ou concordar que marcassem, sempre havia alguém para bancar o cupido se ao menos pedir.
E ausência de internet e até telefone, para quem morava em Ibitira, pelo menos, marcávamos os beijos do fim de semana na hora do recreio, na escola. Os pais negavam quase todas as saídas, missa e uma ida na pracinha depois eram louváveis exceções. No fundo, até eles deviam saber, mas fechavam os olhos por saber que a maldade estava longe da igreja e da gente.