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O peso da caneta

Escrever é descobrir que muito é pouco e, às vezes, que pouco é bem mais do que eu pensava. Quando começo um conto ou crônica logo vejo que a cruz que eu carregava era bem mais leve do que parecia, de vez em quando acontece o contrário, o que era simples fica denso e ganha muito mais espaço na minha vida. Acredito que o poder da escrita é este: desatar nós e criar laços eternos com o que de fato conta.

Desde que aprendi a escrever tenho a necessidade de passar tudo a limpo. Foi a escrita que me deu uma profissão e hoje mais do que nunca preciso dela, para sobreviver até, em todos os sentidos. Quando me desafiei no início do ano a escrever todo dia o que eu queria era encontrar um motivo para redigir sem que ninguém me pautasse. E assim eu abri mais meus olhos e a inspiração não tem me deixado na mão.

O melhor de toda esta história é que aprendi que todo dia me ensina algo, que existe pelo menos uma lembrança, uma sensação que merece ser eternizada. E a única maneira de não deixar eternos momentos fulgazes irem embora é pregá-los à tinta. Daí não haverá tempo nem mal capaz de apagar o que um dia foi importante. O tempo é implacável e costuma levar muito do que foi bom um dia, de dissolver acontecimentos, a caneta tem o poder de trazer a tona o que realmente houve.

Às vezes, depois de um tempo, o que escrevi no passado parece uma fotografia de uma época distante. É bom ver que resolvi o que me incomodava e hoje minhas questões. Noutras, dá vontade de voltar. E volto, porque memórias, fotografias e a leitura são as únicas máquinas do tempo. A escrita não deixa dúvida de qual era o caminho, já que a lembrança, quando vem só da cabeça, aponta outras estradas. Aí eu viajo mais certa de que voltarei onde eu queria.

 

Talita Camargos: Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.