Quando um não quer

Quando um não quer

Eles diziam que só queriam conversar. Nunca falaram tão sério, queriam mesmo conversar e não dialogar, que exige aquela alternância entre se calar para ouvir e falar, responder de acordo com a interação do outro. Se tivessem de frente para um espelho pouco mudaria, pois nenhum ouvia uma palavra a não ser a própria. Mariana atropelava a fala de Fábio, Fábio não a deixava chegar até o fim de uma frase inteira.

– Pra mim não está mais… – tentava se fazer ouvir a moça.

– Eu tento fazer o melhor por nós, blá, blá, blá – ele atropelava com um discurso ensaiado em casa.

Só que Mariana não parava também. Continuava a ordem que havia se proposto em casa. Ela queria terminar o namoro e nenhuma justificativa de Fábio a faria mudar o que havia imaginado conversar com o então namorado. Ele já sabia e queria impedi-la de qualquer jeito. A única forma, naquele momento, era não ouvi-la. Fábio sabia que todo amor que ele sentia por ela não a faria voltar atrás naquela decisão. Ele não aceitava.

Ensaiou tudo antes de encontrá-la. Comprou flores, chocolate, mandou uma mensagem açucarada mais cedo. Quando ela entrou no carro colocou a canção dos dois, I wanna hold your hand, dos Beatles, passou a mão pelos cabelos ruivos da moça, falou do tempo, do quanto ela estava mais bonita, de um livro de Clarice que relia. Ela apenas sorria com o canto da boca sem mostrar os dentes e impedida de começar qualquer frase. Ela também estava nervosa e preferia esperar ele parar no parque.

Fábio estava perfumado, com uma fragância que ela havia dado no primeiro mês de namoro, com a jaqueta de couro do Natal anterior e os olhos verdes a laçavam entre as lentes que corrigiam uma leve miopia. Era um rapaz bonito, não o mais, porém daqueles que fazem as mães dizerem que a filha forma um belo casal com o genro.

Mariana reconhecia, mas de uma hora para outra deixou de ver além das aparências. O entusiasmo dos primeiros meses haviam acabado. Ele era bom. Ela era uma boa menina, inteligente e incapaz de manter o moço com ela sem gostar para mais tarde desiludi-lo.

Chegaram ao parque no final da tarde. Nenhum dos dois conseguia concluir nenhuma frase. Aliás, declamaram os dois discursos ensaiados sem o outro escutar bem entrecortadamente. Mariana só pôs ponto final na fala de Fábio quando ele propôs:

– Vamos sair pra dançar hoje?

– Estou exausta, tenho tentado… – numa última tentativa de dizer…

– Eu te levo para casa então

Entraram no carro e ele colocou a música ainda mais alta. As preferidas dela, porém só as que davam vontade de cantar alto. Brincou o caminho inteiro e moça desistiu de tentar se fazer ouvir.

Fábio viajou no final de semana com os pais para um sítio que dizia odiar pra dar um tempo pra moça. E foi aí que Mariana se fez ouvir. Em um ato desesperado, digitou uma mensagem:

– Fábio, eu tentei conversar com você, mas não quis me ouvir. Não quero mais namorar – falou sem meias palavras.

Ele fingiu que não viu por algumas horas e quando não teve jeito leu, nesta altura a namorada não atendia mais. Dizia que não estava em casa na semana seguinte. Se ele aparecia na escola dava um jeito de esconder, até que meses depois ela decidiu conversar. Aí sim ela o ouviu e vice-versa. Porém, o adiamento da conversa não adiantou e cada um seguiu seu caminho. Ele a culpava pelo modo de terminar, ela justificava dizendo que ele nunca a deixou terminar pessoalmente e assim seguiram com seus dramas até o tempo apagar a dor e torná-los amigos. Depois disso, todos os dias trocavam mensagens, pouco se viam e conversavam pessoalmente.

 

Written by Talita Camargos View all posts by this author →

Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.

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