Bicicleta

Bicicleta

 

Nesta semana eu vi uma situação daquelas em que ninguém tava certo, mas também não tava errado. Duas pessoas que não se conheciam se exaltaram uma contra a outra por um problema além dos próprios controles. Uma mulher subia uma rua pela calçada, no sentido do trânsito, ao mesmo tempo em que um garoto descia de bicicleta pela mesma calçada. Ela gritou pra ele andar na rua, e ele reclamou que não havia ciclovia.

Talvez ele estivesse um pouquinho mais errado por descer na contramão, mas andar na rua no sentido correto não faria diferença para ele. Quem usa bicicleta sabe como a rua pode ser cruel. Ela estava certa. Aquele não era lugar pra ele. Ele não deveria estar na calçada. Ele deveria estar na rua. Onde não tem ciclovia, como ele corretamente questionou, os carros precisam reservar o espaço dele.

Acontece que isso é o que diz a lei. E cumprir a lei, meus amigos, a gente sabe que não é o forte do nosso povo, né? Quero dizer, não é quando nós mesmos precisamos cumpri-la.

O outro sim. O outro precisa cumprir a lei. O outro tem que ser um estrondoso exemplo de retidão jurídico-social. Porém para nós mesmos, ah, para nós mesmos sempre tem um atraso, uma pressa, um jeitinho.

Por isso aqueles motoristas não reservavam o lugar para o garoto andar na rua. Por isso o não cumprimento da lei obrigou que o garoto também não cumprisse a lei. Você, amigo leitor, talvez pudesse argumentar que ele deveria impor o próprio lugar ao trânsito. Forçar sua presença no canto correto da rua.

Bem, espero que antes de argumentar isso você já tenha tentado impor-se a um ônibus ou carreta, aos 14 anos, com, não sei, algo em torno 1,60m de altura. Depois disso a gente pode avançar na conversa.

Fato é que, sim, o menino estava errado, mas também estava certo. Ele não deveria estar de bicicleta usando a calçada, mas se ele não tem o espaço dele respeitado na rua, alguém precisa lhe oferecer outro lugar.

É correto se irritar com o garoto andando de bicicleta na calçada? É sim. É correto dizer pra ele que aquele lugar ali não lhe pertence? É sim. No entanto, a partir do instante que ele te mostra por que ele tá ali, aí a gente tem que dar a mão pra ele e ir juntos atrás da ciclovia, né? É sim!

Tá achando estranho eu chegar até aqui sem propor uma reflexão mais profunda? Sem explicar qual é o propósito desse texto? Não tá entendendo direito por que eu gastei dois mil caracteres? Explico.

A gente gosta bastante de reclamar. Gosta bastante de defender o nosso, o que tá na nossa mão, o que nos pertence, Mas:

(1) a gente faz isso pra pessoa – instância – certa?

E (2) a gente se esforça do mesmo jeito pra ajudar o amiguinho do lado com a causa dele?

 

 

Written by Simião Castro View all posts by this author →

Simião é jornalista, repórter de política, escreve contos e crônicas. Também conta histórias em áudio, vídeo, o que você pedir, é produtor multimídia, saca um pouco de tudo. “Eu tento ser um jardineiro das palavras, um aventureiro das sílabas. Duvido de tudo e prefiro assim! As certezas me assustam. Quem tem certezas demais também”.

Oi, o que achou do texto de hoje?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *