Mais um Silva?

Mais um Silva?

Tio Cacá não é só mais um Silva, ou melhor, um Carlos Alberto Silva. Por causa da ideia do meu avô, e de mais de um milhão de pais, de homenagear o capitão do tri da Seleção Brasileira e jogador do Fluminense com o mesmo nome, o Carlinhos nunca era o Silva procurado, os xarás sempre lhe causaram problemas. Já chamaram-no para acertar contas de homônimos, com a Justiça e tantos outros perrengues de Carlos Albertos.

Se a dona Rita e o Alonso tivessem colocado o sobrenome dela também, Camargos, o número de confusões poderia ter diminuído, mas a opção foi pelo mais comum, o Silva. Com o nome abreviado, mais curto, os problemas se multiplicaram. Por isso, desde muito jovem, o Carlinhos tomou uma decisão séria: batizar os filhos com uma graça que os livrassem desses transtornos.

Vieram três rebentos: o Pafyeze, a Rita Cárclem e o Calberty Júlio. Tem quem vá pensar que os meninos sofreram bullying, mas apesar de não terem nenhum xará eles nunca contaram isso, se foram zoados nem ligaram. São como o Carlos Alberto mesmo, têm concepções diferentes da vida, não pensam como todo mundo. O que acho mais sensacional é que parece que o nome combina muito com cada um. E assim o tio explica os nomes deles:

Pafyeze: pai + filho + espírito santo. Ou seja, a junção da primeira sílaba da “oração” mais o e para que a soasse bem. Hoje o Ezy, como o chamamos, é cineasta e produtor cultural, duvido que alguém se esqueça dele ou confunda com algum outro profissional do meio, qual outro diretor de arte e fotografia se chama Pafyese? Se alguém souber me avise, vou gostar de conhecer.

Rita Cárclem:  para a segunda filha o Carlinhos escolheu o primeiro nome dentro dos padrões, belo, porém simples, uma homenagem para minha avó e mãe dele. Já no sobrenome ele teve a ideia de fundir Carlos com Klemia (a esposa na época e mãe da Rita) – Cárclem. Hoje ela administra uma grande empresa de empreendimentos imobiliários e Kárclem ficou sofisticado, chique, como ela, caiu bem como sobrenome.

Calberty: para o nome do caçula não poderia ser diferente, tinha que ser algo significativo. E se ele não curtia chamar-se Carlos Alberto fazer uma mistura dos dois nomes poderia ficar legal, não é? C de Carlos + Alberty de Alberto teve como resultado o nome do menino, o nosso Cal. Como se não bastasse, para batizá-lo de forma mais especial ainda, ele ganhou um segundo nome – Júlio, uma alusão ao nome do meu pai, irmão do tio Cacá, o qual voltava dos Estados Unidos na época.

Disse alusão porque meu pai se chama Julinho, no diminutivo mesmo, por causa do apelido de um jogador de futebol também, do Palmeiras. Como o Carlos não quis ousar tanto ficou Calberty Júlio e não Calberty Julinho, o nome do meu pai na íntegra foi para meu irmão, uma herança que ele gosta muito, embora tenha que mostrar a identidade para mostrar que não está mentindo.  

Na hora de escolher o sobrenome ele resgatou o Camargos da mãe e jogou o Silva para escanteio. Teve uma atitude muito diferente dos pais que só colocaram-no em dois dos dez filhos.

Único

Estranho é que o tio Cacá é um dos sujeitos mais singulares que conheço, é mais maluco beleza, ao contrário do que a alcunha sugere. Tem um olhar atento para fotografia, faz interpretações legais da vida e Bíblia (já peguei uma agenda dele cheia de anotações), sofreu vários acidentes e continua de bem com a vida. É um dos poucos que nunca vi sem sorrir, desanimado.

Porém, já ouvi dizer por aí que ele só não vingou como jogador de futebol porque teve os pés mordidos por pirambebas logo quando havia um olheiro no campo, assim ele não pôde disputar a partida (falei que ele sofreu alguns acidentes, esse foi um). E de jogador ele tem outra característica: as pernas tortas, tal qual Garrincha.

Written by Talita Camargos View all posts by this author →

Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.

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