Ed Motta e o pecado da simplicidade

Ed Motta e o pecado da simplicidade

Lembrei-me hoje que a música brasileira tem um cantor chamado Ed Motta. Ele deixou claro que não quer saber de tupiniquins nos shows dele na Europa falando português simplório, nem ele usa a língua mãe nos shows do velho mundo, assim, tá proibido. Senti um alívio quando ele disse que um inglês básico basta. Ufa! Meus anos de verbo to be nunca foram tão valorizados.

Porém, o engraçado é que nunca senti vergonha do meu português, mesmo quando tive que usar palavras mais simples porque a pessoa tinha muito a me ensinar, mas pouco entenderia se eu escolhesse termos sofisticados. Também mudei o tom para algo que soasse melhor em entrevistas e várias outras situações. Entre amigos, em qualquer lugar, é quando tenho menos preocupação com o português, aí sou simplória mesmo. E Ed também se referiu a essa situação, gente que vive fora e gostaria de matar as saudades nas apresentações dele não tem vez. Se encontrar um compatriota por lá, nada de deixar o inglês de lado, é bom lembrar.

Para falar a verdade, eu pouco me preocupo até com meu inglês enferrujado, que beira o simplório. Nunca deixei de puxar papo com gringo por ter vergonha de falar. Triste, vergonhoso, é ficar em um canto calado sem companhia porque deixei de usar um instrumento potente: a linguagem verbal. Já usei até a expressão “The book is on the table”, mais ou menos, para perguntar se eu havia esquecido um livro em cima de uma mesa de uma pizzaria. Também já falei que vi “dolphins in the sky” em vez de “I saw dolphins when I were playning under the sea”. O rapaz me perguntou o que eu fumava, mas tudo bem, não me envergonhei.

Fiquei envergonhada foi com Ed Motta, embora eu não devesse. É um artista que só tem ganhado holofotes quando faz este tipo de declaração. Da outra vez que esteve na mídia falou que brasileiro é um povo feio, ignorou a imagem que vê no espelho todo dia. Desta vez, ele foi além, afirmou que seu público de verdade mora na Europa, é culto, informado. Até comparece uma turma simplória, os que devem gritar “Toca Raul”, imagino, entretanto, esses não fazem parte de seus seguidores. Eu não me considero a mais desinformada do mundo e se por ventura morasse ou estivesse na Europa nunca pagaria para ver um brasileiro cantar em inglês ou outras línguas, iria preferir tomar uma cerveja com a galera simplória em um copo sujo qualquer, bem simplório.

 

 

Written by Talita Camargos View all posts by this author →

Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.

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