Como descobrir o nome do vizinho no século XXI

Como descobrir o nome do vizinho no século XXI

Quando eu percebi, uma criança chorava no apartamento ao lado. Como assim, nem percebi que a vizinha estava grávida? Por nove meses esbarei com ela pelos corredores e nem vi. Depois me dei conta de que nem o nome dela eu sabia. Aliás, só sei o da síndica, pois o pagamento do condomínio no meu prédio era feito diretamente para ela até poucos meses. Também sei o nome do primeiro filho do casal que me surpreendeu com o recém-nascido, de vez em quando escuto a mulher ensinar dever de casa para o menino, Guilherme. Já ouvi o irmão mais velho chamar o bebê de Arthur.

E dos outros mais de dez moradores que vivem tão perto e tão longe de mim?

Eu tenho suspeita dos nomes, pelo menos dos que moram no meu andar. Graciele, Marcelo, Sandra… Pelo menos é o que aparece quando vou acionar o meu wi-fi, é assim que se deve descobrir o nome do vizinho hoje. Problema é que se eles usam o mesmo raciocínio para descobrir como me chamo, vão me cumprimentar como Badia qualquer dia desses, o singelo nome da minha rede. Depois ainda dizem que vizinho é o parente mais próximo. É claro que se eu estiver em apuros vou bater na porta deles, porém só se não tiver jeito, na hora do aperto a gente lembra do dito popular e eu ainda acredito na solidariedade humana. De certa forma, não sei o nome deles porque não me causam problemas, apesar de não ser amiga de ninguém, convivemos bem, respeitamos as ordens para que possamos todos viver felizes no edifício.

E cidade “grande” é assim mesmo, não é que nem Ibitira que vizinho ou não todo mundo sabe o nome. Mesmo hoje, com mais de dez anos fora de lá muita gente que só digo oi, por desconhecer o nome ou apelido, fala meu nome. Eu até sei quem é de vista, mas conhecer mesmo tá longe. Aí é que as dimensões das cidades tornam-se irrisórias, também conheço pouco os habitantes da cidade que são todos vizinhos, porém tenho certeza que sabem muito de mim. Em cidadezinhas, dá tempo de sentar na praça e falar de quem já se foi do local, de quem ficou e dos que vieram. Se eu morasse lá, certamente eu saberia da gravidez da vizinha antes até de ela mesma saber, o boato mais frequente é quem está com uns quilinhos a mais estar grávida, às vezes acertam e outras tantas erram.

 

Written by Talita Camargos View all posts by this author →

Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.

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