Casa da vó Zeni: disputa e partilha

Casa da vó Zeni: disputa e partilha

Eu e meus irmãos sempre disputamos bolinhos de chuva, biscoitos e o lugar na cama ao lado da minha mãe. Com o passar dos anos, ficamos grandes para brigar por comida e dormir fora das próprias camas. Assim eu achava até uma das idas pra casa da vó Zeni. Havia uma só rede, dessas que chamam para deitar e ficar por ali a tarde toda.

Eu fui logo pra lá apesar do olhar gordo da minha irmã. Ela me pedia o tempo todo para sair. Alegava que ia para o sítio menos, eu dava de ombros, dizia que merecia o descanso por ser a neta mais presente. Uma chantagem emocional infantil que nos levou de volta aos 7, 8 anos.

A casa da vó faz isso, pega pela mão, pra nos levar em uma viagem pelo tempo. Um tempo delicioso em que vemos uma mãe açucarada à frente, disposta a fazer todas as nossas vontades, até as não declaradas.

Parece que a minha avó até faz algum tipo de magia pra isso acontecer. Não sei se é o biscoito de polvilho, a couve escaldada ou os móveis quase todos no mesmo lugar desde que nos entendemos por gente. Minha vó faz quase tudo como era há mais de 20 anos.

Pode ser a saudade de quando passávamos um mês inteiro lá em disputas por biscoitos fritos, bolinhos de chuva, “mentiras” e um lugar no cocho junto com a ração das vacas pra aproveitar a vó ao máximo. Sim, em vez de ficar dentro de casa, vendo desenho, íamos cedinho para o curral com ela. Havia dias que nosso café da manhã era no cocho, as vacas até achavam que as bolachas eram uma ração diferente.

E agora, nós, moças criadas, nos comportamos como crianças perto da vó. Esquecemos regimes, regras de boas maneiras, fazemos o que é permitido na casa dela(tudo!). Decretamos o “saiu do vento, perdeu o assento” como uma das únicas regras do dia.

Foi assim que perdi meu lugar na rede. Minha irmã só saiu de lá pra dividir os biscoitos fritos. Daí veio outra lei da infância – ninguém podia comer mais que a outra. Os biscoitos, quentinhos, com gosto de momento e do passado, deviam ser mais ou menos simétricos também. Essa magia que mistura o ontem e o hoje nos fez parar de disputar  para começar a partilha do que o tempo não consegue tirar o sabor.

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Written by Talita Camargos View all posts by this author →

Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.

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