Banquete indigesto de cagaita

Banquete indigesto de cagaita

João sempre acordava com a voz da mãe: “Não esquece, deixa os menino cumé besteira antes do almoço não”. Era a instrução diária para a moça que tomava conta dele, dos dois irmãos e da casa enquanto a mãe trabalhava. O que o garoto pouco entendia era qual a necessidade de lembrá-la. A casa ficava em um sítio, só entrava na geladeira o que dona Cleide e o seu Moacir levavam para casa – nada que pudesse ser considerado besteira. Chocolates e refrigerante só aos fins de semana. E a meninada esperava tanto pelas guloseimas que nunca sobrava para a segunda, quando eles não estavam.

 

A babá era obediente, se recusava a dar qualquer coisa, mesmo que uma maçã fora de hora. Ela sabia que na verdade a patroa queria dizer era isso, porque besteira não existia ali. Até ela sentia falta de beliscar alguma coisa antes que o almoço ficasse pronto, a dispensa era tão básica que ela até perdia a vontade. Um dia João quase chorou de vontade de comer e a moça não quis desrespeitar a dona Cleide.

João saiu amoado pelo imenso terreiro do sítio. Joaquim, que foi capinar, perguntou ao menino o que tinha acontecido. “Uai gente, como assim, ela te deixou com fome?”, disse ao ouvir a resposta de João. “Não, Joaquim. É só vontade de mastigar”, contou. “Então tá fácil, nem parece que cê é menino da roça. Nunca comeu azedinho?”. “Eu não”, disse curioso. “É essa plantinha aqui. Não enche, mas distrai, dá pra mastigar e é boa”.

Com uma gula que nunca havia sentido, o garoto arregalou os olhos e encheu a mão de azedinhos. Como quem comia morangos se deliciou com a plantinha que mal sabia poder comer. Foi um verdadeiro banquete, o primeiro de muitos. Quase toda manhã aquele era seu lanche antes do almoço. Um dia ele começou a se perguntar se não tinha mais nada no sítio que ele podia mastigar. Por via das dúvidas sempre conferia se podia comer sem perigo com o Joaquim ou outra pessoa que tivesse por perto, menos com a babá que contaria para a mãe.

Certo dia conheceu uma tal de “Cagaita”, frutinha esférica do cerrado. Mesmo com a Cagaita verde ele se fartava e até comia menos no almoço, sem dar bandeira, às vezes até empurrava um pouco mais de comida pra babá não desconfiar dele. Só que os banquetes fora de hora acabaram no dia que a Cagaita ficou amarela, madurinha. Daquela vez não foi preciso subir na árvore para colher a fruta, várias cagaitas estavam no chão e ele comia como se não fosse almoçar. Joaquim não entendia o paladar do menino, Cagaita madura era ruim com força, na opinião dele.

Duas horas depois João se contorcia em cólicas. A babá não sabia o que ele tinha feito para ir toda hora no banheiro, Joaquim se calou e quando dona Cleide chegou sabia qual seria a solução. Foi no quintal, pegou algumas folhas de boldo, outras de bálsamo. Primeiro João teve que engolir o bálsamo, fez careta. Depois a mãe caprichou no boldo e falou: “É ruim, mas é bom, toma tudo”. O menino nunca fez tanta careta na vida e pensava: “Como é que um quintal que dá tanta coisa gostosa pode produzir uma planta tão ruim?”.

Dona Cleide nunca entendeu porque o menino ficou tão ruim. Revirou a geladeira, a dispensa e nada de encontrar produto estragado ou com data de validade vencida. Disse pra ela mesma que devia ser uma dessas viroses. Se os médicos podiam explicar tudo que não sabiam assim por que ela não poderia?

João guardou o segredo e continuou a comer timidamente no quintal, nunca mais se fartou. Comia (com muita moderação) azedinho, pitanga, cagaita verde e o estômago revirava quando a fruta ficava amarelinha. Resistia só de lembrar do gosto do boldo. Maneirou até nos refrigerantes e chocolates do fim de semana, ficava triste só de pensar que se passasse mal teria que beber todo aquele líquido pra ficar bem.

 

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Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.

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