A princesa brejeira e a heroína

A princesa brejeira e a heroína

Meu pai sempre me chamou de princesa. Quando eu era menina e até na adolescência, eu era a princesa do brejo por gostar de andar descalça, brincar com terra, tomar banho de chuva e de rio. Nunca achou que eu deveria ser diferente, saber manusear mil e um talheres e ter outros modos que as escolas de boas maneiras, ou de princesas, ensinam. Mas mesmo assim eu era, ou melhor, sou, a princesa brejeira dele.

Minha mãe também me coroou, não sem ressaltar meu desajeito para dançar. Era realista, pois no que eu era boa elogiava. A única coisa que ela queria que eu fizesse como uma princesa destas de conto de fadas era andar com uma postura melhor. Equilibrei livros, usei colete, não por questões meramente estéticas, mas de saúde.

Cresci convicta de que era princesa, pois pai e mãe assim me tratavam. E eles me deram outra certeza: a de que devia ser uma heroína guerreira da minha própria história – vencer meus desajeitamentos, os obstáculos que aparecessem pela frente para chegar aonde eu mais desejasse, além de cotidianamente ajudar ao próximo, nem que fosse desobstruindo a passagem. Uma heroína como as outras – imperfeita, com pontos fracos e outros fortes a ponto de fazer a diferença no dia a dia – com meus superpoderes que tenho descoberto desde a infância e outros que busco desenvolver, sem estar fadada ao que me é nato. Heroína que não se importa de se despentear quando na luta, de impregnar os sonhos de suor e até lágrimas.

Diferente das princesas fictícias (na vida real algumas agem feito heroínas também, como Lady Day), perfeitas em seus castelos, com tudo a mão, impecáveis, mas sem desejos que são realmente delas ou no máximo um amor proibido. Já nascem com um destino traçado – heranças e deveres. A heroína também, pois a cada um é dada uma missão ao vir a este mundo. Entretanto, com menos caminho já previsto e muita pedreira pela frente, na maioria das vezes.

E diferente do que muita gente pensa, eu acho que tive muita sorte por ser a princesa do brejo. Aproveitei cada pedacinho da terra vermelha de Ibitira, cada tombo de bicicleta, cada gota de chuva. Ter recebido o carinho necessário e os incentivos para lutar sem ser enclausurada para não sujar a roupa me fortaleceu e acima de tudo deixou que eu fosse uma criança feliz.

Written by Talita Camargos View all posts by this author →

Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.

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