A paz no cume da montanha não resolve nada

A paz no cume da montanha não resolve nada

Buscar a paz no alto da montanha só adianta se ela fizer a viagem de volta comigo porque eu preciso da paz o tempo todo. Ela tem que ser minha companheira quando estou sozinha – em casa, no alto da montanha, no trem que vai pra cidade grande – para eu não me sentir solitária; quando de frente com opiniões contrárias ou assuntos que sorrateiramente roubam meu equilíbrio; no meio de uma multidão tão desconhecida, ameaçadora e ao mesmo tempo parecida comigo.

Se eu deixá-la no alto da montanha, quando for buscá-la em um fim de semana ou até em um ano sabático, a vida sai dos trilhos; o desequilíbrio vem junto com a solidão; em meio a tantos ou quando falarem o que não quero ou não posso ouvir. Acredito que, nesse caso, em que a paz fica no alto da montanha, o trajeto é para uma visita à paz e não uma busca.

Em visitas o contato é temporário, desaparece. Quando entendo o que é buscar o sentimento continua comigo.

E ser uma pessoa de paz só faz sentido se for diante do que é ameaçador. Dentro da igreja é fácil, durante uma oração pode ser fácil, quero ver eu me manter serena se tocarem nas minhas feridas. Eu já viajei em busca de tranquilidade e encontrei muitas situações contrárias no meio do caminho; estive mais calma em uma tarde caótica de trabalho do que em uma semana de férias. Porque eu tenho que encontrar a paz o tempo todo e especialmente quando a vida cobra alto preço. A paz no alto da montanha, na calmaria da casa de campo, longe de mim, é só uma lembrança, às vezes emoldurada em retratos.

A paz dentro de mim não faz a tristeza desaparecer, mas me ajuda a ver o que o causou a tristeza pode ensinar. A paz não resolve magicamente problemas, porém ajuda a evitar outros, principalmente o desgaste entre quem pensa diferente, impede que eu dê respostas formuladas no fogo alto das emoções. A paz por si só não resolve quase nenhum embrólio, entretanto me coloca em condições de pensar melhor para encontrar minhas soluções.

 

Written by Talita Camargos View all posts by this author →

Talita Camargos é jornalista e flerta com a literatura, procura inspiração em conversas de ônibus, flores, familiares e amigos. Idealizou o Texto do Dia e publicou nos 365 dias de 2015 neste blog como desafio pessoal.

Oi, o que achou do texto de hoje?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *